“É a nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida,

Mas brincar de ser pequeno não serve ao mundo.”

Coach Carter

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

papel marginal





Escrevo em guardanapos como um retirante em seu diário.
Vou deixando as coisas para trás. Bem aos poucos me livrando do que pesa.
Desenho no papel apenas o que quero levar comigo.
Escrevo para viver, embora não viva disso. Escrevo para me anestesiar.

As palavras surgem do ócio, os sentimentos brotam da desatenção.
E então rabisco tudo em papéis sujos usando uma caneta falha.
Coloco no papel o que sinto o tempo inteiro, mas tento ignorar.

Escrevo em guardanapos pelo contraste em relação ao que escrevo.
Utilizo um meio frágil para expressar o que de mais forte já senti.
Demonstro desdém falando sobre a coisa mais valiosa que possuo.
Me torno um pseudônimo onde você certamente lê o meu nome.

Coloco neles o resto de mim. O que realmente importa.
Coloco o meu amor, coloco o que você me trouxe.
A poesia que existe em você e que eu, audaciosamente, li.

Escrevo em guardanapos para que eu nunca me perca do amor.
Para que eu me lembre que ele é simples e verdadeiro.
Para que eu me lembre que ele é universal e poderoso.
Para que eu me lembre que ele é um estado constante.

Escrevo e guardo porque esse sentimento é a última coisa na qual acredito.
Escrevo porque ele é quem rege a minha vida, o que me mantém respirando.
Portanto, desistir dele é desistir da minha própria existência.

Escrevo em guardanapos sentado na praça, vendo as crianças correrem.
Escrevo meus motivos, diagramo seu nome, te resgato em mim.
Escrevo com o papel apoiado na perna. Perfuro sua fina camada.
Machuco sua fibra expressando minhas emoções.

Pois meu amor é vagabundo, é marginal. Meu amor é malandro e pecaminoso.
Meu amor é pagão e descontrolado. Meu amor é a loucura, é o precipício da alma.
Meu amor é o resto, é o troco do pão. É tudo o que carrego nos bolsos.

Na verdade, escrevo em guardanapos para que possam lhe ser úteis algum dia.
Para que quando minhas palavras não significarem nada, possa ainda utilizá-lo.
Para limpar o batom, para enxugar as lágrimas, para fazer origami.
Quero lhe ser útil mesmo no dia em que minha utilidade for nula.

E por fim, escrevo com desleixo porque minhas palavras estão se perdendo.
Tudo o que eu tinha para escrever, já foi escrito, mas eu quero mais.
Longe de você perdi o dicionário e
pouco a pouco vou perdendo a semântica.

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