“É a nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida,

Mas brincar de ser pequeno não serve ao mundo.”

Coach Carter

sábado, 24 de setembro de 2016

vazio cotidiano



Todos os dias eu chego em casa e sinto falta de te falar como foi o meu dia.
Te falar os apertos pelos quais passei no meu serviço, as pessoas que atendi.
Todos os dias eu chego e fico pensando em quem compreenderia o que quero dizer.
Quem reagiria da maneira correta às minhas histórias, quem entenderia a sensação.

Todos os dias eu chego em casa e sinto falta de te ouvir contar sobre seu dia.
Fofocar sobre as pessoas do seu cotidiano, discutirmos as razões das ações delas.
Todos os dias eu fico me perguntando que tipo de coisas você me contaria.
Se me contaria tudo ou se iria apenas me relatar com um olhar e pedir meu abraço.

As miudezas da convivência, sabe? Os detalhes que fazem toda a diferença na vida.
Seria fácil dizer que sinto falta de coisas grandes e específicas, momentos marcantes,
Mas na verdade eu me derreto pelas menores coisas, aquelas que não consigo descrever.
Aquelas coisas cuja descrição parece tola para qualquer um que esteja fora. Pura sensação.

A rápida troca de olhares em público, a expressão aciumada ao me ver próximo de outra.
As músicas que trocávamos, os vídeos que compartilhávamos, o afago na despedida.
As pequenas histórias engraçadas, os gostos, o ponto do café, o whey com leite, as calcinhas.
São coisas tão pequenas, tão rápidas, são subjetivas, pequenas névoas no dia-a-dia.

A percepção de um sentimento por trás de uma mensagem aparentemente normal.
"Oi." "Oi, o que você tem?" "Nada não." "Pode se abrir comigo se quiser, estou aqui."
"Eu só quero o seu abraço." "Estou descendo, chego em 10."
E o abraço cumpre seu papel. Calado ele diz o que ela queria ouvir. Surdo, eu a escuto.


Os bons momentos são como retratos. Eles ficam ali, sempre ao alcance da lembrança.
E quando tudo acaba, você chora, explode, quase morre, mas um dia supera.
Substituir o que foi grande é fácil. Netflix, cerveja, musculação, amigos, velocidade.
Mas os intervalos continuam vagos, continuam vazios. O vazio do indescritível.

Já a convivência é uma tatuagem que se fixa para sempre na sua alma, na sua vida.
Você nunca mais será o mesmo depois dela. Em algum momento você pode odiá-la,
mas sempre a verá, sempre a sentirá, cravada na pele, cicatrizada na mente.
Branda, constante, como um vício, um TOC, uma abstinência anônima.

Não há como substituir aquilo que não era visível, o que não era palpável.
Posso substituir seu corpo, mas nunca sua alma. Suas mãos, mas nunca seus carinhos.
O tempo que passávamos juntos, mas nunca sua presença, sua voz, suas falas.
Seus olhos, mas nunca seu olhar. Eu posso substituir tudo, mas nunca você.

E o cotidiano vai me engolindo um pouco de cada vez, mas te mantenho aqui dentro.
Escrevendo em rascunhos as coisas que queria te contar, o "boa noite" que queria enviar.
E pela convivência, parafraseando "Soulstripper", eu vou sofrendo só um pouquinho.
Um pouquinho o tempo todo.

Até você voltar.

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