“É a nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida,

Mas brincar de ser pequeno não serve ao mundo.”

Coach Carter

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

ciclo da água

lá fora está uma noite tranquila, quente, escura e normal como todas as outras,
mas aqui dentro tem chovido bastante.
chovido a muito tempo e transbordado por todas as partes.
caído uma tempestade que negligencio a meses, talvez anos,
e agora estou em estado de emergência.

a água invadiu todos os pontos.
destruiu represas, liberou coisas que odeio,
aqui e ali.
encobriu áreas que deveriam estar sempre a vista.
encobriu problemas que deviam ter sido resolvidos.
encobriu quase todo o território.

sobreviventes acenam de seus telhados,
procuram por comida e água potável em seus barcos improvisados.
ninguém quer morrer, afinal, mas alguns se foram,
desaparecidos no meio dos escombros.

desaparecidos e ninguém sabe quem realmente eram.
só percebem que falta alguém e a rotina se altera.

a melancolia é a parceira da chuva.
eu sou um sobrevivente dentro de mim mesmo, num barco improvisado.
estou dentro demais para ver o todo.
não procuro por comida,
não procuro por água.

procuro pelos desaparecidos,
aqueles que me fazem falta, mesmo que eu não saiba seus nomes,
seus rostos,
suas funções,
mas me são essenciais.

dentro de mim a chuva continua caindo.
escorre pela minha testa, aprofunda as ruas por onde navego.
"hey, está chovendo."

e sou só eu, no final
sozinho velejando por uma cidade que já não mais existe.
uma Atlântida perdida no tempo, no mapa, na memória.

as lembranças, os momentos, as histórias nas paredes,
as fotos nos porta-retratos, os deveres de casa nos cadernos,
os bilhetes de geladeira e os chinelos nunca mais calçados.

a melancolia me atingiu, me tirou quase toda a vontade de seguir em frente.
dentro de tudo o que era esperado de mim,
até que me sai bem.
ate certo ponto eu caminhei com minhas próprias pernas,
fiz o que esperavam de mim, só não sei o que eu mesmo esperava
ou o que eu mesmo espero, ao todo.

a chuva continua caindo, cara
ela não para de me castigar.
cheiro de carvalho e cedro invadem meu nariz nessa noite esquisita de aprofundamento pessoal.
o que eu queria ser mesmo? o tempo passou tão rápido.
as pessoas falam tanto, esperam tanto. e você apenas segue, sabe?
você não sabe muito bem das coisas.
elas esperam que você se forme e tenha um bom emprego.
elas esperam que você adquira coisas e tenha um status.
elas esperam que você seja você, sendo tudo o que elas dizem.
elas não sabem o que esperam de você e te admiram quando você se sobressai
e te atacam quando você cai

um dia essa chuva vai ter que parar,
um dia eu não vou mais olhar pela janela e ver as gotas escorrendo,
um dia eu não vou mais me sentir incomodado com ela,
um dia eu não vou mais ir lá fora e me molhar.

mas até lá, ela continua caindo
continua limpando o terreiro
continua invadindo por baixo da porta, a fresta da janela, os buracos da parede que não tapei.
continua jogando na minha cara toda a sujeira que existe por ai
toda a sujeira que existe por aqui.
desmascara todas as minhas mentiras para mim mesmo e traz minha solidão a tona.
mostrará os motivos de tudo o que sou e tudo o que quero.

me soterra de vergonha e me afoga em orgulho e desilusão.
me tornarei a primeira vítima fatal desta chuva infinita,
afogado num balde d'água.


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