“É a nossa luz, não nossa escuridão que mais nos assusta.

Nosso medo mais profundo não é de sermos inadequados.

Nosso medo mais profundo é de sermos poderosos além da medida,

Mas brincar de ser pequeno não serve ao mundo.”

Coach Carter

terça-feira, 5 de julho de 2016

ensaios de um medo


Hoje finalmente choveu. Já era de se esperar, o tempo está fechado há dias, mas somente hoje os ventos trouxeram a tão esperada chuva.
A tempestade me deixou preso na faculdade, já que eu era o único motociclista da turma. Mal havia começado o curso e eu já sentia todo o peso do mundo sobre minhas costas. Sempre sumia da visão de todos durante os intervalos - tanto para descansar quanto para evitar situações.
Estava sempre evitando alguns olhares e situações constrangedoras: minha ex-namorada estava na minha sala, juntamente com aquela garota.
Minha ex-namorada já não me incomodava, não tanto quanto aquela coisinha. Desde que as aulas iniciaram eu agia como se não a conhecesse. Evitava qualquer situação que nos deixasse próximos, mas constantemente nossos olhos se encontravam, e nenhum dos dois conseguia quebrar este contato. Ficávamos assim até que algo externo rompesse nosso momento. Aquilo estava me deixando louco, mas eu me contive.
Seis semanas já haviam se passado e eu estava segurando bem a situação. Até agora.
Fiquei na sala observando a chuva pela janela e pensando na minha vida, fazendo planos, aproveitando o momento de paz enquanto ouvia música no alto-falante do celular.
- Oi. - ouvi subitamente uma voz vacilante atrás de mim.
Gelei naquele momento. Eu sabia quem era, mas não queria acreditar. Tive um impulso de sair correndo, pular pela janela, sumir de qualquer maneira, mas me recuperei rapidamente e tentei parecer inabalável.
- Olá - respondi sem me virar. Tive medo de olhá-la e demonstrar todo o meu desconforto com a situação.
- Quanto tempo, né? Como você está? - a voz dela continuava tropeçando. O desconforto da situação atingia a nós dois como um trem de carga.
"O que ela está querendo?" eu não parava de pensar. Fiquei tanto tempo para finalmente tentar me afastar dela, tentar me acostumar com a falta que ela fazia. Já havia até me recuperado do baque inicial quando a vi novamente na minha sala.
- Estou bem e você?
- Estou bem também.
Um silêncio maldito dominou aquele ambiente. O ar estava tão pesado que se alguma gota de chuva ousasse entrar pela janela, ficaria flutuando sem tocar o chão. Eu não tinha mais o que dizer. Não queria manter uma conversa. "Por que ela não vai embora? Vá embora, por favor." Minha mente se tornou um turbilhão e eu já não pensava com clareza. Se ela fosse um animal selvagem, com certeza sentiria o cheiro do meu medo.
Eu sentia o cheiro do medo dela.
Eu podia sentir que ela estava parada logo atrás de mim, há no máximo 2 passos de distância. Podia sentir o cheiro daquele perfume tão significativo pela primeira vez no ano. Ela não o havia usado desde que as aulas começaram.
Lá fora a chuva ainda caia raivosamente sobre os carros e árvores, calçamento e asfalto, guarda-chuvas e pobres coitados pegos desprevenidos. Tão desprevenidos quanto eu naquele momento. O vento soprava os galhos e assobiava pelo vão da janela. Um cenário idêntico ao da última vez em que nós dois estivemos juntos em um quarto.
- Eu adoro a chuva. - fiz uma pausa para organizar as ideias - Ela chega e nos pega de calça na mão. Cai e faz um estrago. E quando finalmente começamos a gostar dela, a nos acostumar com ela ali, ela vai embora. Ela é bela, torna especial o momento de um casal apaixonado, torna um inferno o momento de alguém triste. E ela não se importa com nada disso. Ela é simplesmente ela. Cada um que lide com a sua presença ou falta.
- Ultimamente tenho odiado a chuva.
- E por que? - perguntei de forma automática me arrependendo imediatamente.
- Eu... - e então ela se calou. Ouvi ela se movendo atrás de mim. Imaginei (e desejei) que estivesse indo embora, com o barulho da chuva era difícil definir a direção exata dos sons que eu ouvia.
Ela me abraçou de repente. Senti sua pele fria tocar a minha. Senti seu rosto molhado pressionar fortemente minhas costas. Um soluço veio acompanhado de um choro desesperado e seus braços me apertavam cada vez mais forte.
Minha mente entrou em transe, uma explosão de pensamentos e sentimentos. O que estava acontecendo? Meu instinto protetor estava atingindo níveis absurdos. Meu coração estava quebrando as barreiras que tanto demorei para construir. Estava tudo ruindo. Ela estava me quebrando por dentro novamente enquanto seu Vodka me embriagava e sua pele me embaraçava.
- Por que você está fazendo isso comigo? - perguntei afinal, me virando para ela.
Agora eu a olhava de cima, aqueles olhos castanhos arredondados destacados pela maquiagem borrada que escorria pelas suas bochechas macias. Não me lembro de ela ser assim tão linda. E agora ela parecia ainda mais baixa do que realmente era. Eu me sentia uma torre olhando-a de tão alto. Enxuguei suas lágrimas e tive um impulso de beijá-la. Ela teve o mesmo impulso. Dei um passo para trás.
Ela se agarrou a mim novamente sem dizer uma palavra. Repousou a cabeça no vão do meu peito e por instantes eu só conseguia pensar que queria que aquele momento durasse para sempre. Memórias inundaram minha mente. Meu celular continuava a tocar criando um pano de fundo para toda aquela situação. Eu estava no meu limite e já sentia minhas últimas estruturas estalando. Toda a minha fortaleza vindo ao chão.
- O que está acontecendo, Pequena? - perguntei novamente enquanto lhe afagava os cabelos delicadamente.
- Você. Você está acontecendo. Eu tipo que não consigo tirar você da cabeça e eu não te mereço, mas, tipo... É que tipo, eu não sei. Não sei o que está acontecendo.
Ela ainda estava agarrada ao meu peito. Tenho certeza que fez isso para sentir as pancadas que meu coração daria ao ouvir isso. Minhas pernas bambearam. Eu não entendia, não esperava. Não ela, não agora, não nunca, provavelmente. Eu já estava conformado com a ideia de que não existiríamos mais. Eu estava com outra pessoa. Eu estava tentando reconstruir minha vida depois da bagunça que ela fez, e agora, no estágio final, ela reaparece? Por que ela acha que tem esse direito?
Um raio caiu ali perto, mas não tive nem o reflexo de me assustar. Ouvi o barulho como se estivesse bem distante e na minha mente rolavam lembranças de todos os tipos. Principalmente lembranças de coisas que nunca aconteceram, pelo menos não fora da minha imaginação e expectativa.
Eu a observei por instantes pensando no que responder. Ela se afastou do meu peito e fixou seu olhar no meu. A tensão era imensa. Meu peito batia como o chão de terra num estouro de boiada.
- Eu não sei o que dizer, mocinha. Minha vida está estranha desde que te vi também, mas... - Eu não sabia o que dizer. Eu estava numa batalha interna feroz. Ela não sabia o que esperar. E nem eu. - Você namora. Eu namoro. Nosso tempo talvez tenha sido no passado.
Parte de mim morreu ao dizer isso. Outra parte renasceu, mas isso não quer dizer que me senti aliviado ou feliz, muito pelo contrário, eu queria me matar. Meu orgulho e meu ego estavam intactos, mas meu peito... Este estava destruído.
- Eu terminei. - disse ela se aproximando de mim novamente - Foi idiota tudo o que eu fiz, eu tive medo naquela época. Era tudo muito intenso, eu não sabia direito o que fazer.
Eu vi todo o desespero no rosto dela, mas não sabia o que dizer. Eu a amava. Amava com todo o meu coração e amaria para sempre. Com ela eu tinha vivido os momentos mais intensos e felizes da minha vida, mas talvez só foram assim pela pouca duração, pela brevidade do que existiu. Talvez se tivéssemos ficado mais tempo juntos, hoje nos odiaríamos. Além de tudo o que aconteceu, o que poderia ter acontecido foi o que mais pesou em nos impedir de seguir em frente. As expectativas, os momentos que poderíamos ter vivido, mas não vivemos, e por isso eram tão perfeitos, porque eram apenas momentos ideais.
- Sabe por que senti tanto a sua falta depois que você foi embora? Porque você foi o mais próximo que eu já tive de dar certo. Eu te olhava nos olhos e enxergava sua alma com clareza e dizia para mim mesmo "É ela." Era a companheira perfeita, a amante perfeita, a garota perfeita. Foi a primeira, e última vez, que tive vontade de estar com alguém para sempre. A primeira vez que me senti completo na vida. As coisas iam tão bem entre a gente e o mundo inteiro desabava lá fora e eu não estava ligando. Não seria o fim do mundo enquanto você estivesse comigo. Mas você se foi. E toda a minha vida ruiu. Você era minha única certeza... - respirei fundo - Depois eu percebi que o que eu sentia falta era da ideia de que as coisas iriam funcionar. Aquela sensação de estar no caminho certo, sabe? A plenitude de estar acertando pelo menos uma coisa na vida.
Meus olhos se encheram de lágrimas. Ser racional era o certo, mas o mais difícil. Minha vontade era largar tudo e pegá-la no colo. Fugir com ela pelo mundo, viver toda a vida que construí com ela na minha cabeça. Cada palavra que eu dizia me machucava e mais difícil era prosseguir. Ela mordia os lábios enquanto eu falava. Seus olhos não paravam de chorar e as mãos estavam se apertando na altura dos peitos. Seu corpo inteiro tremia. A ansiedade, da qual ela sempre sofreu, estava em níveis absurdos.
- Talvez - continuei - nós só tenhamos sido tão importantes um para o outro naquela época porque éramos exatamente o que o outro precisava. Agora nós mudamos, nos adaptamos para sobreviver, tivemos nossas experiências. Acho que nós dois... - a palavra não queria sair, ficou entalada na garganta e só veio junto com um soluço - acabou.
- Você não me ama? - ela secou o rosto e perguntou olhando no fundo dos meus olhos. Ela estava usando aquele olhar castanho em mim. Minha nuca se arrepiou. Ela estava me olhando com a alma. Ela estava dentro de mim e eu, dentro dela.
Minhas pernas perderam as forças e eu cai de joelhos diante dela. Eu ainda lutava para me manter de pé, mas era tarde demais. Nossos rostos estavam na mesma altura. Ela estava e sempre esteve aqui dentro.
- Eu te amo. Te amar é a única coisa que eu aprendi a fazer direito na vida. E por isso não vou suportar nunca mais te perder, eu não tenho forças para te perder duas vezes em uma só vida. Não me peça isso. Não peça para me abrir novamente a você. E não me prometa não ir embora, você não pode prometer algo que não está nas suas mãos. Amores assim não devem existir aqui, na vida real, pois a perda deles não pode ser medida, nem curada, nem esquecida. A perda é a única dor real que já conheci, e não quero, não posso tocá-la novamente. Você é o amor que deve estar para sempre somente na minha cabeça, porque se você fosse minha e eu te perdesse novamente, por qualquer motivo, amanhã ou daqui a 80 anos, minha vida terminaria ali.
Outro raio caiu perto dali e levou consigo a energia do prédio. Provavelmente já deviam ser 19hrs, pois a escuridão caiu sobre a sala como um manto furado. Alguns poucos feixes de luz entravam pela janela, mas eu estava quase cego pelas lágrimas.
Eu havia acabado de jogar tudo o que tinha no peito para fora, tudo o que guardei por meses, e não conseguia ver a expressão dela. Meu corpo inteiro doía. Meus músculos se contraiam e lutavam uns contra os outros. Meus órgãos internos pareciam querer trocar de lugar. Estava suando frio. Eu apoiei meus braços no chão e tentei me recompor. As lágrimas faziam meus olhos arderem.
Ela se aproximou de mim e ergueu meu rosto com as mãos. Enxugou meus olhos e ficou ali sorrindo com leveza, roçando os dedos nas minhas bochechas de maneira terna.
 - Anjo bom. - ela disse finalmente com uma voz amável, e me beijou. Seus lábios contra os meus estavam quentes, contrastando suas mãos geladas. Aquela boca pequena que eu havia me adaptado a beijar estava novamente sugando minha alma. Eu estava novamente flertando com a loucura. Valsando com o diabo. Cantando a ópera dos mortos a beira do precipício.
Me levantei, a beijei na testa e a abracei. Não dissemos mais uma palavra e nem choramos. Neste pequeno instante infinito, éramos somente nós dois, sem o mundo lá fora e o barulho da cidade e as buzinas dos carros e as vozes das pessoas.
Rubel tocando no celular preenchia o pequeno silêncio que a chuva deixava passar.
Ela me beijou mais uma vez, pegou sua mochila e foi embora.

Eu fiquei ali, observando uma joaninha que subia pela janela.

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